sexta-feira, 4 de março de 2011

AS CONSEQUÊNCIAS DA CRISE FINANCEIRA MUNDIAL NOS IED

RESUMO
O presente trabalho traça um panorama, ainda que não muito aprofundado, dado não ter a natureza de monografia, TCC ou tese, dos investimentos externos diretos no Brasil. Inicia fazendo explanações a respeito do que seja IED, os valores de investimentos internados no Brasil nos últimos 4 anos e cita os principais países de onde se originam esses investimentos. Comenta sobre a crise europeia e a regulamentação de investimentos externos diretos no Brasil, passando pelas regras relativas à obtenção de vista de residência permanente para investidor estrangeiro...
PALAVRAS-CHAVE
Investimento. Estrangeiro. Direto. Crise. Europa.
ABSTRACT
This little work, despite being not so deep as it should be, intends to provide the reader with
some useful information about Foreigner Direct Investment – FDI in Brazil, chiefly in this days when european economies are fighting to survive the crisis. It starts explaining FDI, quotes the amount of the investments arrived in Brazil in the last four years, highlighting the countries where the funds came from. The paper also ponders about the ongoing crisis in Europe that threats some of the european bigger investors in Brazil: Portugal and Spain, and brings remarks about Brazilian rules on FDI, and permanent visa obtaining process.
KEYWORDS
Investment. Crisis. Europe. Brazil.  
INTRODUÇÃO
Em períodos de crise, a atitude natural de quem detém recursos é alcançar o máximo de proteção para seu patrimônio. Se essa proteção puder ocorrer com ganhos para esse patrimônio, melhor ainda.

Partindo dessa premissa, e sabedores do agravamento, nos países europeus, da crise financeira que deu seus primeiros anúncios em 2008, agravou-se em 2009, amenizou em 2010 na maior parte do mundo, mas que, desde os meses finais de 2010, ameaça retornar com força ao Velho Continente, nos desafiamos a fazer um estudo, ainda que despretencioso, sobre  repercussão dessa crise nos investimentos realizados no Brasil.

É que a Europa é grande emissora de investimentos para o Brasil, e a nova onda de crise que está quebrando as economias conhecidamente frágeis como Grécia e Portugal e forçando economias fortes, como Itália e Reino Unido a tomarem medidas austeras, pode resultar em aumento de IED no Brasil. Ou será o contrário?

Analisando o comportamento dos investidores externos nos últimos três anos, podemos descobrir tendência deles em épocas de crise. Com esse conhecimento é possível ao país se preparar melhor para momentos de dificuldades no exterior e tirar melhor proveito ou ser menos afetado quando ocorrerem condições adversas, daí a importância do estudo.
No preparação do trabalho as informações foram buscadas na imprensa virtual, nas páginas da internet do Banco Central do Brasil, do Ministério do Trabalho e Emprego e do UNCTAD.

No desenvolvimento foi dado especial destaque ao agravamento da crise financeira nos países europeus, dentre estes alguns dos que mais investem no Brasil, como Portugal e Espanha, razão porque o trabalho de dedica exclusivamente à apreciação dos investimentos provenientes desse continente, verificando o comportamento deles nestes anos, bem com as expectativas em relação aos vindouros.

Analisa, ainda, as medidas tomadas pelo Brasil que alteraram as regras relativas aos investimentos externos diretos, além de fazer um apanhado sobre a regulamentação acerca da concessão do visto de residência para investidor.

1.                  O INVESTIMENTO ESTRANGEIRO DIRETO

Para obter resultados positivos em sua economia, um país precisa de recursos externos. Os recursos externos podem vir através de diversas maneiras, dentre as quais, as aplicações em bolsa, a compra de títulos do governo, que são chamados de especulativos e extremamente voláteis, pois seus proprietários transitam com estes valores de um lugar para outro, aplicando-os onde as taxas de juros estiverem maiores.

O investimento estrangeiro direto é uma forma de obtenção de recursos  externos. É a maneira mais eficaz, pois trata-se de recursos aplicados no setor produtivo da economia, seja para capital de giro das empresas, para aquisição de máquinas, ampliação da planta industrial, desenvolvimento de novos produtos, conquista de mercados, etc, tendo, por isso, natureza duradora.

O Investimento Estrangeiro Direto – IED ou FDI, sigla em inglês para Foreign Direct Investment (FDI), é objeto de legislação específica em nosso país, sendo definido pelo Banco Central do Brasil nos seguintes termos:

"as participações, no capital social de empresas no País, pertencentes a pessoas físicas ou jurídicas residentes, domiciliadas ou com sede no exterior, integralizadas ou adquiridas na forma da legislação em vigor, bem como o capital destacado de empresas estrangeiras autorizadas a operar no País”[2],

Para não confundir os IED com outros tipos de investimentos a mesma circular do Bacen exclui da definição acima:

“as participações societárias de investidores não-residentes adquiridas nos mercados financeiros e de capitais, bem como os rendimentos delas decorrentes, que constituam investimentos em portfólio regidos por normas específicas, passíveis de registro no Bacen por meio de procedimentos e transações próprias do SISBACEN"[3].

Os investimentos estrangeiros diretos têm forte participação no relatório das entradas de recursos no Brasil, basta comparar os números dos três últimos anos (em milhões de dólares americanos):[4]

2007: 33.704,58
2008: 43.886,30
2009: 30.443,97
2010: 48.462,00.
Fonte: Banco Central do Brasil

Em 2010, segundo relatório da United Nations Conference on Trade and Development (UNCTAD), o Brasil ocupou o 10º lugar no ranking dos países que mais atraíram investimentos diretos.[5]

Ao delinear-se os primeiros mapas apontando o Brasil como um dos países onde os efeitos da crise não se demonstravam tão catastróficos, percebe-se o retorno gradativo dos IED, até alcançar, em dezembro de 2010, o recorde anual superior a 45 bilhões de dólares americanos. 

2.                  OS INVESTIMENTOS EUROPEUS NO BRASIL

Relativamente aos últimos anos, os investimentos externos diretos provenientes de países europeus que mais investem no Brasil tiveram, em 2009 e 2010, uma recuperação, ainda que tímida, conforme demonstra a tabela a seguir:

Países
2007
2008
2009
Alemanha
1.756,78
1.036,97
2.459,22
França
1.214,40
2.856,13
2.136,48
Reino Unido
1.003,54
641,00
1.025,17
Espanha
2.163,52
3.787,47
3.415,19
Portugal
468,08
1.025,91
376,97
Países Baixos
8.116,23
4.623,68
5.721,78
                Soma
14.722,55
13.971,16
15.134,81
                                                                                    Fonte: Banco Central do Brasil

Percebe-se que no auge da crise, ocorrido no ano de 2008, quando não se percebia ainda aonde seus resultados seriam sentidos de modo mais duradouro e mais pernicioso, os recursos oriundos desses países, os que mais investem no Brasil, tiveram um recuo na ordem de 5,10%, queda capitaneada pelos Países Baixos, cujos investimentos no Brasil foram reduzidos quase à metade.

Analisando pelo volume total, pode-se, em primeira leitura, concluir que a crise nos países emissores de capitais para IED interfere, levando para baixo, os investimentos em outros países.

Todavia, analisando-se individualmente, verificamos que houve aumento, ainda que tímido, nos investimentos provenientes de 3 países e, mesmo com relação àqueles cujos investimentos para o Brasil diminuíram, a tendência de crescimento retornou no ano seguinte.

É natural que, com o mundo inteiro mergulhado no problema, os investidores tenham ficado retraídos, haja vista não haver naquela época informações mais precisas sobre quem resistiria melhor ao problema.

Na época da crise aguda, os detentores do capital preferiram observar e aguardar os resultados a curto prazo das medidas tomadas pelos governos visando combater os feitos da crise.

Enquanto alguns países limitavam o crédito e outros tomarem medidas protecionistas restringindo a entrada de produtos estrangeiros, o Brasil investiu no aumento do consumo,  reduzindo tributos, aumentando a oferta de crédito, incentivando a indústria da construção civil, colocando os recursos públicos em grandes obras de infraestrutura.  

Tais medidas mostraram eficácia, de forma que a crise não foi sentida por aqui com a mesma gravidade que o foi em outras nações.

O acerto do governo nas medidas de combate à crise  repercutiu no retorno dos investimentos estrangeiros, que resultou no forte aumento das entradas em 2010, contrariando a tendência observada na maior parte dos outros países, e com expectativas promissoras para 2011.

3.                  A CRISE NA EUROPA

Mas, a crise, que reduziu força em algumas nações, tendo praticamente desaparecido do Brasil sem deixar muitas sequelas, recrudesceu nos países europeus nos últimos meses de 2010, atingindo seu ápice na Grécia, no inicio de 2011, e ameaçando levar outros a colapso como Portugal, Irlanda e Espanha, economias reconhecidamente mais vulneráveis.

Lógico que a quebra, ou quase quebra, desses países reflete fortemente nos destinos dos outros, mais fortes, como Alemanha e França, haja vista o elo umbilical que os liga através do Euro e da União Européia.

Destarte, os vislumbres da crise na vizinhança deixam os investidores de todos os países europeus preocupados sobre o futuro. Acrescente-se o fato, já destacado, de que a crise manifesta-se de modo mais agudo em países que são grandes investidores no Brasil como Portugal e Espanha.

Sem deixar de mencionar que, embora ainda não afetada fortemente pela crise, o agravamento das condições em alguns países, vamos dizer, periféricos, traz preocupação à Alemanha, uma vez que, sendo a maior economia da zona do euro, recai sobre ela a maior responsabilidade pela ajuda a ser dada a quem esteja em situação de quebra.

Essa preocupação dos investidores, a insegurança quanto à situação de seus negócios daqui a alguns anos e a incerteza quanto ao retorno dos novos investimentos, são fatores determinantes para a definição de onde colocar o dinheiro que detém para investir.

Se a Europa está enfrentando situação de crise, e se os analistas dos mercados financeiros têm opiniões diferenciadas quanto a duração dela, é natural que seus investidores busquem mercados alternativos onde as perspectivas de risco sejam menores para ali colocar seu dinheiro.

É nesse cenário, onde as perspectivas para os investimentos no Velho Continente não se mostram muito atrativas, que despontam os países chamados emergentes, justamente aqueles onde a crise se fez sentir de modo menos intenso.

Nesta análise sobressaem os países em desenvolvimento. Parece que esses países, mais acostumados às intempéries econômicas, a crises internas e externas, aos arrochos proporcionados pelas cartilhas do Fundo Monetário Internacional nas décadas passadas,  estão mais preparados para o enfrentamento quando as condições se mostram difíceis.

E o Brasil aparece como estrela desse seleto grupo onde a crise arrefeceu mais rapidamente, onde o crescimento ocorre com estabilidade política, onde existe um mercado consumidor em visível ascensão e onde as previsões para o cenário futuro parecem mais otimistas.

E realmente parece que os investidores descobriram este país. Pelos dados da UNCTAD, se tirarmos países desenvolvidos ou que tradicionalmente recebem mais investimentos, tais como Estados Unidos, França, Alemanha, Reino Unido, Bélgica, o Brasil fica na 5ª posição, atrás de China, Rússia, Cingapura e Hong Kong.

O recorde de IED ocorrido no ano de 2010 tende a ser quebrado ao final de 2011. Isto porque as consultas de investidores aos consultores nacionais têm crescido em ritmo acelerado, fazendo prever que muitos recursos devem aportar no Brasil nestes próximos anos, principalmente quando se conjuga o fator crise nos países emissores com a necessidade nacional de investimentos em diversos setores visando a preparação para a Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas de 2016, eventos de proporção gigantesca para os quais o país precisará estar preparado.

De fato, além de possuir um grande e crescente mercado consumidor, o Brasil precisa de grandes investimentos, principalmente em obras de infraestrutura, tanto para atender à demanda crescente do desenvolvimento, como específicas para esses grandes eventos que se aproximam.

Some-se a isso, a constatação de que, à medida que a população sobe um degrau no poder aquisitivo, mudando de classe, além de comprar a casa própria, o carro do ano, viajar de férias, ela também fica mais exigente com relação aos produtos que consume.

Haja vista essa necessidade, marcas sofisticadas que antes não se sentiam atraídas pelo Brasil, tencionam aportar por aqui; ou aquelas que e restringiam a São Paulo, planejam se expandir por outras cidades a fim de tirar proveito desse boom nacional e até compensar perdas em outros lugares.


4.                  A ATRAÇÃO DE INVESTIMENTOS PELO BRASIL

Mas como tirar proveito desse momento em que os capitais que geram emprego e desenvolvimento, que são os investimentos externos direitos, estão fugindo das economias europeias em busca de segurança em mercados emergentes? Como atrair estes capitais não especulativos sem correr o risco de trazer, junto com eles, os proprietários do dinheiro sujo, os mafiosos, os bandidos, que não desejam produzir, mas apenas lavar dinheiro?

Como não atrair, também, aqueles que estão mais interessados em ter apenas um lugar onde viver tranquilamente gastando dinheiro sujo ganho em transações obscuras mundo afora?

Na realidade, no momento atual, o Brasil não precisa fazer muita coisa para atrair investimentos. Diferentemente de alguns anos atrás, quando se acenava aos investidores estrangeiros com isenção de impostos, liberdade total para repatriar capitais e lucros, terrenos, além de outras regalias, hoje o país nem precisa fazer nada, eles vêm simplesmente porque o mercado nacional está mais atraente do que em outros lugares, mais tradicionais. O Brasil é realmente a bola da vez, não precisa mais estar esmolando nos escritórias das grandes companhias para que elas se estabeleçam aqui.

Todavia, visando, talvez, não ser rígido ao extremo, que dificulte o ingresso e a saída de recursos, nem aberto em excesso, que facilite demais a entrada de qualquer um, o Brasil tem feito alguns ajustes em suas regras. A remessa do dinheiro, em si, seja por pessoa física, seja por pessoa jurídica estrangeira para investimento direto em empresas brasileiras já constituídas ou para novas sociedade é simples e desburocratizado. Basta que se crie, no Banco Central, um número RDE-IED (Registro Declaratório Eletrônico – Investimentos Externos Diretos), que identifica o par investidor/receptora, para que o investidor ou investidora comece a fazer as remessas para o negócio no país.

As remessas deverão incorporar-se ao patrimônio da sociedade mediante a contratação do câmbio e arquivamento no órgão do registro do comércio competente, da ata de assembleia, se sociedade anônima, ou alteração contratual, se limitada, onde ocorre a subscrição desse novo capital.

5.                  A CONCESSÃO DO VISTO PARA INVESTIDOR ESTRANGEIRO

Entretanto, o que ocorre na grande maioria dos casos é que o investidor deseja ter residência no país para acompanhar mais de perto o negócio em que colocou seu dinheiro, às vezes retirado de outros negócios ou de aplicações em seu país de origem.

Para isso precisará obter um visto permanente, mesmo nos casos em que o investidor não pretende morar no país, mas apenas portar um documento que o permita entrar e sair quando quiser pelo tempo que quiser.

A legislação brasileira com respeito aos requisitos para concessão de visto permanente para investidor estrangeiro teve algumas mudanças em tempos relativamente recentes, refletindo a política de facilitar a entrada de investimentos efetivamente produtivos e reduzir aqueles destinados apenas a supedanear vistos para famílias que querem usufruir de nossas belezas naturais ou artificiais e não desejam se submeter às regras destinadas aos turistas.

Até 10 de fevereiro de 2009, para disciplinar a concessão de autorização para fins de obtenção de visto permanente para investidor estrangeiro pessoa física, vigorava a Resolução Normativa do Conselho Nacional de Imigração nº 60. Por essa norma, o estrangeiro que desejasse obter o visto de permanente deveria, tão somente, comprovar o investimento em moeda estrangeira em montante igual ou superior, a US$ 50.000,00 (cinquenta mil dólares norte-americanos).

Dizia a Resolução, ainda, que o Conselho Nacional de Imigração poderia autorizar a concessão de visto permanente para estrangeiro cujo projeto de investimento contemplasse no mínimo dez novos empregos, mediante a apresentação de plano de absorção de mão-de-obra brasileira, para o período de cinco anos, mesmo que o montante do investimento seja inferior ao previsto no caput deste artigo.

Por essa Resolução a primeira carteira do investidor tinha validade de 5 anos e sua renovação era bem simples. O único documento exigido que podia dar alguma informação importante sobre o andamento da empresa onde se fizera o investimento era a RAIS, que demonstra a quantidade de empregos gerados.

Essa regulamentação permitia, dada sua falta de exigências posteriores à concessão do visto, que algumas pessoas, criassem um empresa e enviassem dinheiro de fora tão somente para comprar uma casa de praia, para onde pretendiam vir em suas temporadas de férias. Ou seja, esses investimentos, cadastrados como IED, não eram aplicados realmente no setor produtivo, não atingiam a finalidade desejada de gerar emprego, renda, aquecimento da economia.

Em substituição a ela, veio a Resolução Normativa nº. 84, de 10 de fevereiro de 2009, a qual definiu em R$ 150.000,00, o valor do investimento mínimo que o interessado em obter o visto de permanente deve comprovar, além de ter criado algumas exigências não constantes das regras anteriores.

Nessa nova norma o interesse social do investimento foi alçado à condição fundamental para a concessão do visto ao investidor. Foi dificultado o trabalho de criar empresa de fachada para receber investimento destinado apenas a facilitar as férias de capitalistas endinheirados.

Não basta, agora, simplesmente enviar ao país os R$ 150 mil. É necessário que o investimento venha trazer melhorias, especialmente na geração de emprego e renda, no aumento de produtividade, na assimilação de tecnologia, ou seja, venha de encontro ao interesse nacional na captação de recursos para setores específicos da economia.

Agora, se o investimento não preenche todos esses requisitos, não há problema, ele está sujeito às mesmas regras de qualquer outro investimento externo direto, mas o investidor não obterá o direito de morar no país.

Parece que o Conselho Nacional de Imigração editou a Resolução já visando filtrar aqueles que realmente têm interesse em produzir, barrando os que desejam apenas comprar no Brasil uma segunda ou terceira moradia e poder entrar e sair sem burocracia.

Além disso, foi reduzido o prazo da primeira carteira de residente concedida ao investidor, que passou a ser de 3 anos. Quando de sua renovação, o investidor deverá comprovar que o plano de investimento apresentado quando do pedido está sendo realmente implementado.

Mais, a Resolução concede ao Departamento de Polícia Federal, a prerrogativa de fazer diligências no local para constatar a existência física da empresa e das suas atividades.

Lógico que essa nova regulamentação dificultou os planos daqueles que não desejam efetivamente investir, mas apenas obter uma segunda residência.

Nota-se que a Resolução foi publicada em inicio de 2009, quando a crise financeira mundial estava em pleno apogeu. Talvez até sem perceber, o Conselho já preparou o país para essa nova onda de investimentos externos que estão chegando e, fatalmente, levam ao aumento os pedidos de visto para investidores.

Analisando os dados disponibilizados pela Coordenação de Imigração do Ministério do Trabalho e Emprego, percebe-se um decréscimo nas concessões de visto de residência para investidores pessoas físicas nos últimos anos, bem como uma estabilidade nos vistos para pessoas destinadas a assumir cargos de direção de empresas no Brasil:[6]

Tipo
2008
2009
2010(parcial)
Investidor Pessoa Física
1.357
921
642
Administrador, diretor, gerente
957
933
952
                                                                         Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego

Nota-se que, mesmo, tendo havido um aumento substancial no volume dos investimentos recebidos,  o número dos pedidos de visto para residência permanente para investidor foi reduzido, o que pode levar à conclusão que o grande volume de recursos tenham sido destinados a grandes empresas nas áreas de comunicações, construção, petróleo, nas quais os investimentos são realizados através de pessoas jurídicas e não por investidores individuais.

Essa constatação corrobora o pensamento de que o setor de insfraestrutura é o grande motor dos investimentos externos no país. As grandes corporações estão aportando aqui, seja mediante a criação de empresas próprias, seja com filiais e, principalmente mediante a associação com empresas brasileiras.

No tocante à origem dos vistos de residência concedidos, independentemente do tipo de concessão: investidor, profissional, etc, não se percebe nenhuma tendência que possa ser atribuída à crise, pois houve uma redução da concessão a pessoas originárias de alguns dos países mais afetados pela atual crise européia, como Grécia e Portugal, enquanto que houve aumento dos vistos concedidos a outros como os espanhóis.

Pode-se concluir que Grécia e Portugal, por estarem passando pelo auge da crise, tiveram, realmente, seu poder de investimento bastante reduzido, enquanto Espanha, onde a crise se manifesta de modo diferente, fazendo-se perceber mais no tocante ao nível de emprego, os efeitos no bolso dos investidores ainda não foram sentidos. 

Por outro lado, os vistos para alemães aumentaram, e diminuíram para franceses. Sabendo que ambos os países não enfrentaram crises fortes em 2010, salvo a França, que teve que lidar com revoltas de jovens e passeatas, eventos mais relacionados à questão do emprego e à reforma previdenciária proposta por seu presidente, somos levados a entender que os efeitos da crise ainda não revelam se a crise propiciará um aumento ou redução dos pedidos de visto de residência para estrangeiros. 
  
País
2008
2009
2010(parcial)
Reino Unido
3.874
3.496
2.910
Alemanha
1.815
1.454
2.171
Itália
1.413
1.395
1.324
França
1.613
1.908
1.253
Espanha
1.133
1.104
1.143
Portugal
  679
708
547
Grécia
224
410
338
                                                                                 Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego

CONCLUSÃO

As pessoas sempre procurarão reduzir os efeitos das crises sobre si e sobre seus negócios. Os proprietários do capital desejam investir seu dinheiro onde tenham mais segurança e rentabilidade. Na crise atual, que se sente mais aprofundada na Europa, percebe-se uma movimentação dos capitais na busca de mercados onde o binômio segurança-rentabilidade sejam mais claros.

O Brasil sabe que é um dos mercados atrativos para estes investidores e está atraindo muitos deles. Mas o Brasil sabe que não é interessante para o país receber qualquer um. Somente interessa aqueles que tenham algo a contribuir com o nosso desenvolvimento. Para isso o respeito ao conteúdo da Resolução nº 84/2009 do CGI é fundamental.

Os números divulgados tanto pelo UNCTAD como pelo Banco Central e pelo Ministério do Trabalho demonstram que a presença dos estrangeiros está ficando mais forte no país. Por outro lado, o Brasil está aperfeiçoando sua legislação na busca de mecanismos que deem segurança tanto ao investidor honesto e que tem algo a contribuir com o país, mas que também protejam o interesse nacional frente aos meros sugadores de recursos que estão por aí procurando países onde possam explorar matéria-prima fácil, mão-de-obra barata, facilidades tributárias. 

O país está no caminho certo, tomando medidas importantes e que se revelaram eficazes no combate aos efeitos da crise financeira mundial. No contexto dessas medidas percebe-se que foram os recursos nacionais que proporcionaram ao país enfrentar os problemas que afetaram o mundo em 2008/2009.

De fato, aumento do consumo, redução ou isenção de tributos, facilitação do crédito, foram medidas que permitiram ao mercado continuar em pleno funcionamento, mantendo os empregos, enquanto o mundo lá fora, convivia com o contrário.

O Brasil, pela primeira vez pôde sair de um crise sem recorrer a recursos externos, sem FMI, sem Banco Mundial, sem Clube de Paris.

Entretanto, mesmo com a pujança da economia nacional, que já alcança o 7º lugar no mundo, o país não pode prescindir dos investimentos externos. Sem dúvida, o dinheiro que vem de fora para aplicação em setores produtivos oxigena a economia e beneficia o país por aumentar as reservas cambiais. Daí a necessidade de continuar dando bom tratamento a esses investidores, sem contudo, abrir mão da seriedade.


REFERÊNCIAS

Relatórios do Conselho de Imigração do Ministério do Trabalho, encontrados em www.mte.gov.br.

UNCTAD Global Investment Trends Monitor, nº 05, 17/01/2011

Relatório do Departamento de Monitoramento do Sistema Financeiro e de Gestão da Informação – Desig, subordinado à Diretoria de Fiscalização do Banco Central do Brasil. http://www.bcb.gov.br/rex/ied/port/ingressos/htms/index3.asp?idpai=INVEDIR acessado em 26/01/2011.

Circular Bacen  2.997, de 15 de agosto de 2000.



[2] Art. 2º da Circular Bacen  2.997, de 15 de agosto de 2000.
[3] Art. 10 da Circular Bacen  2.997, de 15 de agosto de 2000.

[4] Relatório do Departamento de Monitoramento do Sistema Financeiro e de Gestão da Informação – Desig, subordinado à Diretoria de Fiscalização do Banco Central do Brasil. http://www.bcb.gov.br/rex/ied/port/ingressos/htms/index3.asp?idpai=INVEDIR acessado em 26/01/2011.
[5] UNCTAD Global Investment Trends Monitor, nº 05, 17/01/2011
[6] Relatório encontrado em www.mte.gov.br.

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